UM CONTO DE SEGUNDA-FEIRA.
ENQUANTO O VALE FALA BONITO
No mesmo Vale da Esperança — agora meio remendado, meio esquecido — surgiu uma moda nova: a de transformar problemas reais em histórias de bichinhos para tentar explicar o que não se explica.
Ali, onde antes se via trabalho, agora se vê discurso. E onde antes se colhiam frutos, hoje se distribuem metáforas para esconder espinhos.
No centro desse Vale vivia um Pardal Falante. Muito antes de ganhar asas no gabinete dourado, vivia cantando sobre moralidade, seriedade, ética… era o dono do ninho da virtude. Até que, um dia, descobriram que o canto não vinha do coração — vinha do contracheque.
Quando o ninho ficou maior e mais fofo, quando criaram um galho só para ele descansar, o Pardal esqueceu da moral que pregava. E quanto mais alto subia no poste público, mais baixo ficava seu canto crítico. O Vale inteiro notou quando ele engoliu a própria voz.
O Pardal que antes “alertava o povo” passou a defender o rei do Vale, o chefe dos galhos, o comandante das diárias, o padrinho das obras paradas, o artista do “a culpa é sempre do passado”.
E então, para justificar quase um ano de confusão, poeira e abandono, o Pardal resolveu escrever… um conto.
Um conto para chamar de seu. Um conto para tentar convencer o Vale de que os buracos são poesia, as diárias são metáforas, o secretário turista é um personagem lúdico, es ruas destruídas são cenário, e a saúde sucateada é apenas “parte da narrativa”.
Nesse conto, ele se coloca ao lado das “formigas heroínas” — formigas que, curiosamente, adoram cargos novos, salários polpudos e bater asas para fora do país enquanto o Vale se afoga nas chuvas.
No seu conto, os trabalhadores são santos. No mundo real, os mesmos santos trabalham com orçamento estourado, obras incompletas e uma prefeitura que culpa a gestão passada… depois de 8 anos no poder.
Mas o Vale sabe distinguir realidade de fábula.
Por isso, nesta manhã de segunda, um Sabiá Teimoso — aquele que não ganha galho, diária ou salário aumentado — resolveu cantar também.
E assim nasceu este conto.
Um conto simples, sem floreios, sem maquiagem, sem bichos heróis inventados para esconder desastres.
Porque no Vale de verdade:
– quem fala de trabalho deveria trabalhar; – quem fala de esforço não deveria viajar enquanto a cidade afunda; – quem fala de futuro deveria explicar o presente; – quem fala de crítica deveria lembrar que um dia também criticou; – e quem vive de metáfora deveria, ao menos, saber plantar a realidade.
No fim, o som do Sabiá — mesmo sem microfone, sem podcast e sem cargo inventado — ecoa mais longe que o canto comprado do Pardal.
Porque, no Vale verdadeiro, nem conto, nem crônica, nem fábula apaga o que todo mundo vê:
é fácil falar bonito quando se vive à sombra do poder; difícil mesmo é encarar o Sol com a consciência limpa.
E enquanto uns escrevem contos para justificar o caos, outros — o povo do Vale — seguem anotando a verdade.
E a verdade, diferente das fábulas, não precisa de asas, nem de metáforas.
Precisa apenas ser dita.
